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BLOGAtualizado em 23 de agosto de 2026

Cão come fezes: é deficiência na ração? O que diz a ciência

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Equipe Revista PetEquipe Editorial • 7 min leitura
Cão come fezes: é deficiência na ração? O que diz a ciência

Coprofagia não é sinal de deficiência nutricional. O maior levantamento já feito sobre o comportamento — Hart et al. (2018), "The paradox of canine conspecific coprophagy", publicado em Veterinary Medicine and Science (PMC5980124) — reuniu cerca de 3.000 respostas de tutores em dois questionários e não encontrou nenhuma relação entre comer fezes e a dieta do cão. Entre os comedores frequentes, 82,3% comiam ração seca como alimento principal; entre os que nunca comiam fezes, 78,3% — praticamente a mesma coisa.

Se a ração não explica, o que explica? Os próprios autores propõem uma resposta que nada tem a ver com nutrição: herança de higiene de toca. Este artigo mostra o que a evidência sustenta, o que ela derruba, e quando o caso merece veterinário.

Cão que come fezes tem deficiência de vitamina?

Não. Essa é a crença mais difundida sobre coprofagia e a evidência disponível não a sustenta. No levantamento de Hart et al. (2018), cães coprofágicos e não coprofágicos não diferiram em dieta, em saúde geral, nem na facilidade com que foram ensinados a fazer as necessidades no lugar certo (78% dos comedores frequentes foram descritos como fáceis de treinar, contra 82% dos não comedores — diferença sem relevância prática). Também não houve relação com a idade em que o filhote foi separado da mãe.

Vale lembrar, ainda, que uma ração vendida como completa e balanceada precisa atender aos perfis mínimos de nutrientes definidos pela AAFCO (Association of American Feed Control Officials) (AAFCO — Selecting the Right Pet Food). O cão alimentado com ração completa dificilmente está "faltando" alguma coisa que ele buscaria nas fezes.

Como a digestibilidade da ração influencia a coprofagia?

Não se sabe — e é importante entender por quê. A ideia de que ração de baixa digestibilidade deixaria "resíduo nutricional atraente" nas fezes é uma hipótese popular, repetida em muitos sites, mas ninguém a testou. O levantamento de Hart et al. (2018) perguntou aos tutores pelo tipo de alimento (ração seca ou outros alimentos), não pela digestibilidade dele, e nesse recorte os dois grupos eram praticamente iguais: 82,3% dos comedores frequentes e 78,3% dos que nunca comiam fezes tinham ração seca como alimento principal. Digestibilidade em si não foi medida ali — nem, até onde a literatura mostra, em nenhum outro estudo do comportamento.

Então a leitura honesta é: falta evidência, não existe evidência contrária. Isso não dá base nenhuma para trocar de ração por causa do comportamento — mas também não permite tratar a explicação da digestibilidade como fato, porque ela nunca saiu do papel.

Duas descobertas do estudo apontam para outra direção. A primeira é o apetite, não a dieta: 51,1% dos cães coprofágicos foram descritos pelos tutores como comedores gulosos, contra 28,2% dos não coprofágicos. É um traço do cão, não da ração. A segunda é a idade das fezes: 85% dos cães coprofágicos do segundo questionário foram identificados comendo fezes frescas — com no máximo dois dias.

Essa preferência por fezes frescas é o coração da hipótese dos autores. Os ovos de vermes eliminados nas fezes levam alguns dias para virar larva infectante, a depender da espécie do parasita e da temperatura do ambiente. Um lobo que limpasse a toca comendo material recém-depositado reduziria o risco de contaminação do grupo — "o menor de dois males", nas palavras dos autores. A coprofagia seria, nessa leitura, um resquício funcional de comportamento ancestral de higiene, e não um pedido de socorro nutricional.

Há também indício de componente racial, que igualmente não se explica por dieta: entre os Shetland Sheepdogs, 41% eram coprofágicos, contra 17% das demais raças. Poodles não apareceram no grupo coprofágico.

Então a ração e a saúde não importam em nada?

Importam para descartar doença — não para explicar o comportamento. A coprofagia pode, ocasionalmente, ter causa médica, segundo o Merck Veterinary Manual (Behavior Problems of Dogs), embora a fonte não especifique quais condições. Por isso o roteiro sensato começa pelo veterinário, e não pelo pet shop.

SituaçãoO que fazer
Cão saudável, peso adequado, come fezes frescas do próprio quintalProvável comportamento normal da espécie — manejo ambiental, sem troca de ração
Perda de peso, apetite exagerado ou fezes gordurosas junto com o comportamentoConsulta veterinária: má absorção e outras doenças precisam ser investigadas
Comportamento novo em cão adulto que nunca fez issoConsulta veterinária antes de qualquer mudança de dieta
Filhote nas primeiras semanasComum e transitório — acompanhar

Nenhuma linha dessa tabela diz "troque a ração". Não porque a ração não importe para a saúde do cão — importa muito —, mas porque a evidência disponível não liga coprofagia à dieta.

O que fazer quando o cão come fezes

O que funciona é frustrar o acesso. Recolher as fezes do quintal imediatamente é a medida mais confiável, porque remove o objeto do comportamento em vez de tentar convencer o cão a mudar de ideia.

Prepare-se para expectativas modestas com o resto. Hart et al. (2018) mediram o sucesso relatado das intervenções mais vendidas e o resultado é desanimador: produtos comerciais que prometem dar gosto ruim às fezes tiveram 0% a 2% de sucesso relatado pelos tutores. O mais usado, o For-Bid, ficou em 1% (352 respostas); o de maior taxa, o Coproban, chegou a 2% (58 respostas). As técnicas de modificação de comportamento ficaram em 1% a 2%, com exceção do comando "deixa" ("leave it"), ligeiramente melhor, em 4%.

Ou seja: se a coprofagia incomoda, o caminho é gestão do ambiente. Se ela vem acompanhada de sinal clínico, o caminho é o veterinário.

O que NÃO fazer

  • Não trocar de ração esperando que isso resolva a coprofagia. A melhor evidência disponível não liga o comportamento à dieta. Troque de ração por motivos de nutrição, nunca como tratamento para o cão comer fezes.
  • Não punir o cão no momento do ato. Punição pode gerar ansiedade e ensinar o cão a comer as fezes escondido, mais rápido.
  • Não assumir que é "só manha" sem descartar causa médica primeiro, sobretudo quando há perda de peso, fezes alteradas ou mudança súbita de comportamento.
  • Não reduzir a quantidade de ração acreditando que o cão "já se serviu". Isso cria um problema nutricional real onde não havia nenhum.

Perguntas frequentes

Suplemento vitamínico resolve a coprofagia?

Não há evidência de que resolva. Como o comportamento não se associou a dieta nem a estado de saúde em Hart et al. (2018), suplementar vitaminas ataca uma causa que o estudo não encontrou. Os produtos formulados especificamente para o problema tiveram sucesso relatado entre 0% e 2% no mesmo levantamento.

Comer fezes é perigoso para o cão?

O risco principal é parasitário, e ele existe mesmo com fezes frescas. O relógio de "alguns dias" descrito no estudo vale para os ovos de vermes, que precisam desse tempo no ambiente para virar larva infectante. Outros agentes não seguem esse relógio: protozoários como a Giardia já podem ser transmitidos em fezes recém-eliminadas. Ou seja, fezes frescas não são fezes seguras — vermifugação em dia, exame de fezes periódico e conversa com o veterinário continuam valendo.

Filhote que come fezes da mãe é preocupante?

Não necessariamente. É comportamento comum nas primeiras semanas e costuma diminuir sozinho. Persistência marcante em cão adulto, acompanhada de qualquer sinal clínico, merece avaliação.

Cão que come fezes de outros animais (gato, cavalo) tem o mesmo problema?

É outro comportamento. O levantamento de Hart et al. (2018) tratou especificamente da coprofagia entre cães (o cão comendo as próprias fezes ou as de outros cães), então suas conclusões não se transferem automaticamente. Na prática, o manejo é o mesmo: controlar o acesso à caixa de areia e aos dejetos.

Quão comum é isso?

Comum. No primeiro questionário de Hart et al. (2018), 16% dos cães se enquadravam como comedores frequentes — vistos comendo fezes de cão (as próprias ou de outros cães) ao menos seis vezes. Não é um desvio raro — é um comportamento que uma parcela grande da população canina apresenta.


Cão que come fezes quase nunca está "faltando algo". O maior levantamento disponível sobre o tema não achou diferença de dieta, de saúde ou de treinabilidade entre quem come e quem não come. A explicação que os autores propõem é comportamental e ancestral — mas eles mesmos avisam que ela é tentativa, sem observação de campo em lobos que a sustente. Vale como a melhor hipótese disponível, não como fato estabelecido. Descarte causa médica com o veterinário, recolha as fezes do quintal — e escolha a ração do seu cão pelos motivos certos, que são outros.

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